quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Brincadeiras infantis e as suas origem




BRINCADEIRAS infantis e as sua origens

Estudos têm dificuldades para apontar origem das brincadeiras, que integram a cultura popular do mesmo modo que a literatura oral, a música e a culinária.
A pintura "Jogos Infantis", do flamengo PieterBrueghel, de 1560, que mostra 84 atividades lúdicas
Vamos brincar então?
Observe com atenção a imagem acima e encontre algumas brincadeiras que ainda são utilizadas nos dias de hoje.
No quadro “Jogos Infantis”, o flamengo PieterBrueghel (1525?-1569) mostra cerca de 250 personagens participando de 84 brincadeiras, em 1560. Grande parte delas é conhecida ainda hoje. É o caso da mara-cadeira, em que duas crianças trançam os braços para formar uma cadeira humana, usada para lançar um dos companheiros, após o canto de um versinho: “Onde vai, Maria Cadeira?/ Vai à casa do capitão,/ O capitão não está em casa,/ Joga Maria Cadeira no chão/ joga Maria Cadeira no chão...”.
De onde vêm as brincadeiras? Ninguém responde com certeza. Elas são universais e fazem parte da cultura popular , como a literatura oral, a música, a culinária.
A brincadeira pode ser considerada uma linguagem.
Sigmund Freud (1856-1939) analisou o comportamento de um menino de 18 meses, que se divertia com uma linha presa no carretel. A criança atirava o carretel para longe e perto do berço _e dizia “vor” (perto) e “da” (longe). Para o psicanalista, o jogo seria a vivência simbólica da presença e afastamento da mãe.
Melanie Klein (1882-1960) e outros psicanalistas e psicólogos trabalharam com a ludoterapia e atribuíram aos jogos e brincadeiras a função de elaborar sentimentos e vivências. Eles divertem as crianças e as preparam para a realidade.
Homero fala de jogos infantis na “Odisséia”. Em túmulos de crianças do século 4 a.C., na Grécia, foram encontradas bonecas. Mas é impossível dar a palavra final sobre a origem de uma brincadeira, pois ela ganha variantes e se transforma no tempo e no espaço. As primeiras famílias européias que chegaram ao Brasil durante a colonização trouxeram a boneca, o pião e o soldadinho. E também monstros e gigantes, ogros e “trolls”, sereias e duendes, junto com canções de ninar e contos de fada.
Os africanos também contribuíram com criaturas que assustavam as crianças, como o tutu-aramará, o quibungo e o nironga. Há referências de que as danças de umbigada têm origem africana. Em 1928, Simões Lopes Neto escreveu que certas danças teriam características indígenas e traços portugueses, como o sapateado.“(...) Parecem haver resultado de uma combinação das danças dos primitivos paulistas, mineiros e lagunenses, com as danças dos açoristas e dos indígenas, mais a meia-canha e o pericon, danças que se usava nas repúblicas do Prata, especialmente em Corrientes, Entre-Rios e Estado Oriental.”As danças tinham nomes indígenas como anu e tatu, além de chimarrita, chico, galinha-morta, e eram dançadas em bailes chamados fandangos que, a partir de 1840, foram sendo substituídos pelas danças vindas da Europa. Eram divertimentos tanto das classes altas quanto das senzalas.Muitas dessas danças passaram para as rodas infantis.
É o caso da dança que acompanha a canção que diz “Folga, folga, minha gente,/ que uma noite não é nada;/ se não dormires agora,/ dormirás de madrugada!”.
Tudo isso foi sendo misturado ao Brasil que já existia antes de ser descoberto. No imaginário dos índios, antes de eles sofrerem influência das missões catequéticas, heróis reinavam sobre a terra. Além de Macunaíma e Maíra, mitos mais difundidos, Nunes Pereira registrou, em 1940, o mito de Bahira, o herói bem-humorado que roubou o fogo guardado no céu pelos urubus. Informam Orlando e Claudio Villas Boas que as crianças indígenas brincam durante todo o dia, especialmente com seus arquinhos e flechinhas. Têm, como se vê hoje entre as crianças do país, brincadeiras de disputa.

Com os curumins, as crianças africanas e européias aprenderam a brincar de imitar animais. Essa fusão cultural tem um paralelo no que acontece na mitologia. Em 1905, Max Schmidt apontou para o risco de se considerar originais algumas correspondências míticas, como a assimilação de Tupã como Deus, explicada por Camara Cascudo.
Um exemplo da miscigenação cultural e da dificuldade de datar e estabelecer origens pode ser observado nas interpretações sobre o conto jocoso “A Festa no Céu”. Na Grécia, um aforismo dizia que animal rasteiro não pode querer voar. Isso leva a crer que a história do sapo que foi a uma festa no céu escondido na viola do urubu já tinha uma versão grega. A história foi registrada entre os índios brasileiros, que provavelmente a conheceram por transmissão dos europeus, e em povos africanos. Uma fábula africana de Angola que diz que a tartaruga (que é sapo ou rã em variantes brasileiras e corresponde, nessa história, à astuta raposa na Europa) é condenada à morte e suplica que não lhe matem pela água, mas pelo fogo. Os inimigos resolvem afogar a tartaruga, e ela se salva.A história também pode ter vindo do Oriente. O tema aparece no “Panchatranta” (livro da mitologia indiana), que se vulgarizou na Espanha sob a influência árabe. La Fontaine pode ter se baseado nessa obra para criar fábulas.Para o estudioso Sílvio Romero, a cultura brasileira toma forma a partir do século 17: “No século 16, pois, por uma lei de evolução que dá em resultado antecederem as formas simples às mais compostas, as canções e cantos populares das três raças ainda corriam desagregados, diferenciados. Nos séculos seguintes, sobretudo no 17 e 18, é que se foram cruzando e aglutinando para integrar-se à parte, produzindo o corpo de tradições do povo brasileiro”.João Ribeiro escreveu no livro “O Folk-Lore” (1919) que as brincadeiras infantis “são mensagens e recados de raça a raça, de povo a povo, de século a século, sem sair da perene onda infantil que os leva a ignorados destinos”.O estudo das variantes linguísticas das brincadeiras ajuda a estabelecer elos históricos. Ribeiro faz um estudo da expansão da brincadeira joão-do-cabo. Ele conta que, em 1919, o jogo vintém-queimado existia em Portugal e possessões, com vários nomes. Na Espanha, o nome era joão-das-cadeinhas. Alberto de Faria recolheu em Campinas (SP) a seguinte variante:_ Vintém queimado!_ Quem queimou?_ Pilão do Carmo (Vilão do Cabo)._ Quer que se prenda?_ Prendido vá.”Após o diálogo, vem outra série de versos, que autorizam a passagem de quem está na brincadeira:_ Passa, passa cavaleiro, pela porta do carneiro!_ Tem uma corda p’ra me emprestar?_ Tenho; mas está suja._ De quê?_ De cuspe de galinha!_ Vamos experimentar..._ Vamos!”Depois dessas perguntas e respostas, feitas por dois meninos que estão nos extremos de uma cadeia de crianças de mãos dadas, todos passam sob os braços em arco dos meninos de uma ponta (a porta do carneiro) à outra; em seguida, os meninos dão um puxão para arrebentar a cadeia (a corda). Todo mundo cai.Então, os dois meninos iniciais marcam no chão o inferno, o purgatório e o céu.Um fica com a mão direita erguida e espalmada, para que os outros batam nela com as cabeças, enquanto pulam. Quem consegue fazer isso vai para o céu. Os perdedores vão para o purgatório ou inferno. As crianças gritam para quem foi para o inferno:_ Coisa ruim, tem-tem_ Pra ganhar vintém!Ribeiro interpreta que o nome vilão-do-cabo teria vindo do tratamento dado a um dos meninos dos extremos da cadeia (na Espanha, frei João das Cadeinhas). Por sua vez, o nome vintém-queimado seria corruptela de “vinte y unquemados”, da parlenda castelhana da tradição quinhentista.
No Nordeste do Brasil, a variante desse jogo é bolotinha-de-cabra e foi recolhida por Julio C. Monteiro. No Ceará, essa brincadeira é conhecida também por bolão-de-cabra, que tem semelhança sonora com “vilão”. No Sul do Brasil, chama-se pilão-do-carmo. Na Bahia, é vilão-do-cabo mesmo. Se vilão resultou em bolão, por que o nome bolotinha? João Ribeiro explica. Como o jogo na península era também conhecido como juan-de-las-cadenetas (“cadeneta” é cadeia de “lavor e trancelim”), “em Portugal o povo, por zombaria, transformou a expressão em jam-da-caganeta desde o século 18”. Caganeta (ou caganita) designa o excremento da cabra. E aí está a razão “que faz predominar no extremo norte o título de bolão e bolotinha-de-cabra para um jogo que primitivamente se havia de chamar vilão-do-cabo ou jam-da-caganeta”. E como vilão-do-cabo virou pilão-do-carmo? É possível que vilão tenha sido substituído por peão, que acabou por se transformar em pilão.A análise dos aspectos linguísticos demonstram o percurso que o jogo fez por Portugal, Espanha e Brasil. A interpretação de uma versão italiana (“tila-tila”) ajuda a descobrir por que um barulho, simulando um tambor, foi incluído na versão brasileira. A mudança pode ter apenas relação verbal. Explica João Ribeiro: “Quase todas as criações tradicionais devem suas formas a verdadeiros equívocos e trocadilhos das palavras. Só a essência escapa a essas erosões e metamorfoses da linguagem”. O curioso na parlenda vilão-do-cabo, que deu na boca-de-forno, é que ela repete o tema da comida, que sempre aparece nas brincadeiras infantis: o bolo, o pão e o forneiro. A palavra final sobre essas interpretações, no entanto, ninguém a terá. O resultado desses questionamentos é tão aberto como o do estudo da poesia.


 Consumismo Infantil, um problema de todos


NÄo importa o gênero, a faixa etária, a nacionalidade, a crença ou o poder
aquisitivo. Hoje, todos que são impactados pelas mídias de massa são estimulados
a consumir de modo inconsequente. As crianças, ainda em pleno desenvolvimento
e, portanto, mais vulneráveis que os adultos, não ficam fora dessa lógica e
infelizmente sofrem cada vez mais cedo com as graves consequências relacionadas
aos excessos do consumismo: obesidade infantil, erotização precoce, consumo
precoce de tabaco e álcool, estresse familiar, banalização da agressividade e
violência, entre outras. Nesse sentido, o consumismo infantil á uma questão
urgente, de extrema importância e interesse geral.
De pais e educadores a agentes do mercado global, todos voltam os olhares para a
infância − os primeiros preocupados com o futuro das crianças, jÇ os atilemos fazem
crer que estão preocupados apenas com a ganância de seus negócios. Para o
mercado, antes de tudo, a criança á um consumidor em formação e uma poderosa
influência nos processos de escolha de produtos ou serviços. As crianças brasileiras
influenciam 80% das decisões de compra de uma família (TNS/InterScience,
outubro de 2003). Carros, roupas, alimentos, eletrodomésticos, quase tudo dentro
de casa tem por trÇs o palpite de uma criança, salvo decisões relacionadas a planos
de seguro, combustível e produtos de limpeza. A publicidade na TV á a principal
ferramenta do mercado para a persuasão do público infantil, que cada vez mais
cedo á chamado a participar do universo adulto quando á diretamente exposto ás
complexidades das relações de consumo sem que esteja efetivamente pronto para isso.
As crianças são um alvo importante, não apenas porque escolhem o que seus pais
Compram e são tratadas como consumidores mirins, mas também por que
impactadas desde muito jovens tendem a ser mais fiais a marcas e ao próprio
hábito consumista que lhes á praticamente imposto.
Nada, no meio publicitário, á deliberado sem um estudo detalhado. Em 2006, os
Investimentos publicitários destinados á categoria de produtos infantis foram de R$ 209.700.000,00 (IBOPE Monitor, 2005x2006, categorias infantis). No entanto, a
publicidade não se dirige às crianças apenas para vender produtos infantis. Elas são
assediadas pelo mercado como eficientes promotoras de vendas de produtos
direcionados também aos adultos. Em março de 2007, o IBOPE Mídia divulgou os
dados de investimento publicitário no Brasil. Segundo o levantamento, esse
mercado movimentou cerca de R$ 39 bilhões em 2006. A televisão permanece a
principal mídia utilizada pela publicidade. Ao cruzar essa informação com o fato da
criança brasileira passar em média quatro horas 50 minutos e 11 segundos por dia
assistindo à programação televisiva (Painel Nacional de Televisores, IBOPE 2007) é
possível imaginar o impacto da publicidade na infância. No entanto, apesar de toda
essa força, a publicidade veiculada na televisão é apenas um dos fatores que
contribuem para o consumismo infantil. A TNS, instituto de pesquisa que atua em
mais de 70 países, divulgou dados em setembro de 2007 que evidenciaram outros
fatores que influenciam as crianças brasileiras nas práticas de consumo. Elas
sentem-se mais atraídas por produtos e serviços que sejam associados a
personagens famosos, brindes, jogos e embalagens chamativas. A opinião dos
amigos também foi identificada como uma forte influência.
Não é por acaso que o consumismo está relacionado à ideia de devorar, destruir e
extinguir. Se agora, tragédias naturais, como queimadas, furacões, inundações
gigantescas, enchentes e períodos prolongados de seca, são muito mais comuns e
frequentes, foi porque a exploração irresponsável do meio ambiente prevaleceu ao
longo de décadas.
Concentrar todos os esforços no consumo é contribuir, dia após dia, para o
desequilíbrio global. O consumismo infantil, portanto, é um problema que não está
ligado apenas à educação escolar e doméstica. Embora a questão seja tratada
quase sempre como algo relacionado à esfera familiar, crianças que aprendem a
consumir de forma inconsequente e desenvolvem critérios e valores distorcidos são
de fato um problema de ordem ética, econômica e social.
O Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, combate qualquer tipo de
comunicação mercadológica dirigida às crianças por entender que os danos
causados pela lógica insustentável do consumo irracional podem ser minorados e
evitados, se efetivamente a infância for preservada em sua essência como o tempo
indispensável e fundamental para a formação da cidadania. Indivíduos conscientes
e responsáveis são a base de uma sociedade mais justa e fraterna, que tenha a
qualidade de vida não apenas como um conceito a ser perseguido, mas uma prática a ser vivida.
Fonte de Pesquisa:
INSTITUTO ALANA: www.alana.org.br
www.linhacruzada.com/site/consumo-infantil-um-problema-de-todos/

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